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Archive for maio \17\UTC 2008

Sobre o patriotismo

É muito comum em nossa época e país ouvirmos exortações ao patriotismo. “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, cantam os fãs brasileiros dos esportes, especialmente quando a Seleção está vencendo uma partida (curiosamente, o orgulho e o amor parecem diminuir quando o jogo não vai bem, o que demonstra um condicionamento hipócrita). De qualquer forma, parece senso-comum em nosso país que patriotismo é uma coisa boa.

Aqueles imbuídos do sentimento patriota costumam exteriorizar seu patriotismo de diversas formas típicas, como jurar a bandeira, cantar o hino nacional, ou, no caso do Brasil, repetir a propaganda oficial de que “brasileiro não desiste nunca”.

Mas, o que é mesmo o patriotismo? para efeitos deste texto, o termo “patriotismo” será usado com a seguinte definição: é o amor e devoção à pátria. Patriota é aquele que ama a cultura do próprio país, sentindo orgulho de nascer onde nasceu e de fazer parte da sua comunidade nacional. O verdadeiro patriota prefere o seu país aos demais. Como supostamente disse Stephen Decatur, um almirante naval americano: my country right or wrong (meu país, certo ou errado) [1].

O patriotismo, como o conhecemos, é uma construção recente na história humana, remontando ao surgimento do Estado moderno, por volta do século XV. É bem verdade que o sentimento de lealdade a um grupo existe desde a época em que os seres humanos se organizavam apenas em pequenas tribos. Mas o que hoje chamamos de patriotismo é um misto de lealdade e devoção dirigidos à noções etéreas como “nação” ou “país”, que definitivamente não se confunde com aquela lealdade direcionada ao membros da tribo, ou mesmo a um líder carismático. De fato, como diz Bertrand Russell em seu “A autoridade e o indivíduo”: “A coesão social, que se iniciou com a lealdade a um grupo, imposta pelo medo dos inimigos, aumentou por processos parcialmente naturais e parcialmente deliberados, até que atingiu os vastos conglomerados de gente que conhecemos como nações” [2].

Mas até que ponto o patriotismo é realmente desejável? Quando se pensa nele como elemento de incremento da coesão social, pode parecer algo que se deva buscar. Entretanto, não é preciso grandes digressões para perceber que a idéia de amar uma pátria traz mais prejuízos do que utilidades, além de ser simplesmente errada.

Um dos efeitos mais comuns do orgulho patriota é a segregação entre nações e a hostilização do que é estrangeiro. Afinal de contas, se alguém se orgulha do seu país, é por algum motivo. Na cabeça do patriota, o seu país sempre tem algo de superior aos demais: uma natureza mais bela, um povo mais simpático, uma maior prosperidade. E, das poucas qualidades que ele encontra em seu país, ele retira motivo suficiente para inflar o peito e se orgulhar, às vezes mesmo desdenhando das outras nações. Como Schopenhauer apontou sarcasticamente: “Cada nação zomba das outras, e todas têm razão” [3].

Essa divisão entre “nós” e “eles” é uma das mais perigosas facetas do patriotismo. Levado ao extremo, isso pode até mesmo gerar a guerra. Cada soldado patriota terá a certeza de que seu lado é o merecedor da vitória, certeza esta compartilhada pelos soldados adversários, todos igualmente patriotas.

Todavia, o erro fundamental do patriotismo parece residir na crença de que se deva se orgulhar de algo do qual não se é, nem se poderia ser, responsável, a saber, o fato de se nascer neste ou naquele país, ou de se fazer parte desta ou daquela nação. Não se escolhe o país onde se nasce, simplesmente “caí-se de pára-quedas” neste mundo e, quando se se dá conta, o indivíduo se vê inserido em um sistema pré-estabelecido de normas e convenções o qual chamamos sociedade, e do qual ele não pode fugir (para a grande maioria das pessoas, a emigração está fora das possibilidades, e, de qualquer forma, seria apenas trocar uma “prisão” por outra). Soa irrazoável sentir orgulho por algo que se deu por puro acaso, e não por produto do esforço ou do talento.

Outro delírio recorrente é o orgulho pelo o que outras pessoas fizeram, se se tratarem de compatriotas. É comum ver-se apresentadores de TV sorridentes ao anunciarem que um conterrâneo ganhou este ou aquele prêmio internacional, ou que de alguma forma alcançou alguma notoriedade além das fronteiras nacionais. Se, por exemplo, um grupo de pessoas com as quais eu não tenho nenhuma relação ganha um campeonato desportivo como a Copa do Mundo, a menos que de algum modo eu tenha contribuído para a vitória, não há mérito meu envolvido, e, portanto, nenhum motivo para orgulho pessoal.

Por sinal, a convulsão social que toma conta do Brasil de quatro em quatro anos possui um fundo ideológico. Trata-se de falsear a realidade criando-se símbolos que inculquem nas massas um sentimento de identidade que não existe. Entre o povo brasileiro e a Seleção não há nenhuma relação a não ser a coincidência de, por puro capricho do destino, terem a mesma nacionalidade.

Mais insensato ainda é orgulha-se de coisas que sequer são produtos do empenho humano. Amar a beleza natural de um país chega à beira do insano. Pode-se até amar a beleza, enquanto ideal a ser alcançado, mas aí seríamos forçosamente levados a amar as belezas naturais de todos os países, e não só meramente admirar o que é estrangeiro e reservar o fervor de nosso coração ao que é nacional.

Vale enfatizar que ao atacar-se a idéia de amor a pátria, não se está defendendo o oposto, ou seja, odiá-la. De fato, a mesma argumentação que desconstrói o conceito de que possuir sentimentos como orgulho e amor por um país é uma tolice se aplica para sentimentos contrários, como ódio ou vergonha. Em outras palavras, se eu não devo me orgulhar do meu país somente pelo fato de ter nascido nele, também não faz sentido nutrir vergonha, pois devemos nos orgulhar daquilo em que temos mérito e nos envergonhar daquilo em que temos culpa, e não temos culpa nem mérito de nascermos neste ou naquele país.

Por fim, deve-se deixar claro também que é possível ser um bom cidadão sem ser um patriota. Não é preciso cantar um hino com a mão no peito para respeitar as leis de um país nem é pré-requisito para servir a uma comunidade amar a música e a cultura dessa mesma comunidade. A motivação para ser um cidadão reto em seus deveres e obrigações é mais uma questão de ordem prática, como tentar viver a melhor vida possível dentro de uma sociedade que nos é imposta.

[1] http://en.wikipedia.org/wiki/Patriotism
[2] RUSSELL, Bertrand. russell_a_autoridade_e_o_individuo.pdf . 146KB
[3] http://ateus.net/artigos/filosofia/aforismos_para_a_sabedoria_de_vida.php

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