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Archive for maio \21\UTC 2009

O mito do altruísmo (ou não?)

É muito comum se ouvir alguém falar que devemos ajudar os outros, que devemos fazer sacrifícios aos nossos semelhantes. É algo que parece tão certo, tão correto, que poucos são os que perguntam: por que mesmo? Por que devemos ajudar os outros? Porque isso é o correto, alguém responde. E por que isso é o correto? e, a despeito disso, é sempre correto ajudar os outros? O fato é que a maioria das pessoas parece encarar como um tabu o questionamento de valores morais arraigados. É como se, uma vez que a gente intuitivamente sinta que algo é certo, nós não teríamos a necessidade de explica-lo racionalmente.

Mas o fato é que o altruísmo, o ajudar os outros deixando de lados os interesses individuais de quem ajuda, é uma ilusão. Ninguém é verdadeiramente, literalmente altruísta e, se o fosse, estaria fadado a uma morte prematura. Basta imaginar o exemplo extremo de alguém que, num dia de chuva, visse um mendigo na rua com pouca roupa e decidisse lhe dar todas as suas peças de vestimenta e acabasse morrendo de pneumonia, pois isso, por definição, seria o ápice do altruísmo. Eu preferiria dizer, e provavelmente todo mundo o mais, que isso seria o ápice da burrice.

Todas as pessoas, de forma consciente ou não, agem egoisticamente, quer dizer, agem colocando os seus próprios sentimentos como último parâmetro de decidir o que se deve ou não fazer. Se você se despoja de alguns trocados ao dar uma esmola, você estaria, em tese, diminuindo o seu pratrimônio a fundo perdido e, você diria, isso prova que o altruísmo existe e que você é altruísta. Mas, na verdade, há duas opções de porque você agiu como agiu: uma, você fez isso por que isso lhe faz sentir bem. Não vou nem perquirir das raízes psicológicas desse sentimento, mas o fato é que a maioria das pessoas se sente bem ao ajudar, e se você fez algo porque isso lhe beneficia, então não foi um ato altruísta, por definição; Ou duas, você até que de repente nem se sentiu bem ao dar a esmola, mas o fez por considerá-lo ser um ato socialmente esperado e o medo de prejudicar a sua imagem recebendo a pecha de egoísta lhe impulsionou a agir. Nesse caso, não foi um benfício que informou o seu ato, mas foi o medo de uma sanção, o que não deixa de ser uma forma de considerar as consequencias que você arcaria, se tratando, portanto, de egoísmo.

Mas a questão é: não há nada de errado em ser egoísta. O egoísmo não implica, como muito se pensa, em ser mesquinho e ficar o tempo todo com uma calculadora na mão computando os favores que as pessoas lhe devem. Muito pelo contrário. Existe um tipo de egoísmo, que eu chamo de egoísmo filosófico, ou egoísmo racional, que se contrapõe ao egoísmo “clássico”, ou egoísmo míope, que consiste em determinar a sua conduta segunda regras gerais de maior benefício geral. Com isso eu quero dizer que o indivíduo minimamente inteligente não fica a espreita de qualquer oportunidade de passar a perna nos outros, o que representa o estereótipo que se faz do egoísta, mas ele irá, sim, levar em consideração as consequencias de longo prazo de seus atos. Basta botar a questão em perspectiva: todo mundo quer ser feliz, certo? Esse parece ser o objetivo de 10 em cada 10 seres humanos. Mas a pessoa que age de forma sistematicamente desonesta diminui as suas chances de ser feliz na vida, pois corre o sério risco de fazer cair sobre si algum tipo de punição.

O indivíduo que for, pois, um egoísta filosófico, no fim das contas não poderá ser egoísta no sentido clássico do termo, pois isso lhe prejudicaria no longo prazo. Alguém que mente, frauda, enfim, faz o mal com o fito de conseguir algum benefício imediato acabará, muito provavelmente, sendo punido pela sociedade (esse argumento não vale, claro, para o caso de um um pessoa muito sortuda ou muito ardilosa que conseguisse passar a vida inteira se safando de suas maldades, mas pessoas assim são uma raridade, e, no que concerne ao cálculo racional de probabilidades visando determinar a melhor conduta a seguir, parece mais que razoável que a maciça maioria das pessoas se beneficiaria muito mais sendo indivíduos honestos e bons).

Na realidade, apenas num sentido muito estrito se pode falar em altruísmo: quando alguém faz um sacrifício em favor de outra pessoa sem que isso aparentemente lhe traga nenhum benefício imediato, mas sim alguma promessa de vantagem futura, não necessariamente a ser paga pela pessoa ajudada, mas que o indivíduo reputa compensar o sacrifício atual. É o caso de alguém que ajuda uma pessoa desconhecida que está se afogando arriscando a própria vida para isso. É claro que ele não pode esperar que exatamente aquela pessoa venha a lhe ajudar num possível futuro afogamento seu, mas ele sabe que é preferível viver numa sociedade onde as pessoas ajudam umas as outras e que, para colher o benefício de uma tal sociedade, ele precisa respeitar as suas regras de convivência, pois isso é, no fim das contas, o melhor para ele individualmente falando.

Em biologia existe um termo técnico que se relaciona um pouco com essa idéia: Chama-se teoria do Estado Evolutivamente Estável (EEE). Se trata de uma teoria que afirma que um sistema formado por agentes egoístas que, à primeira vista, acabariam por se destruir mutuamente, na realidade, interagem de tal modo que produzem um efeito no sistema como um todo que resulta em um equilíbrio dinâmico. Como diz Richard Dawkins, em o Gene Egoísta, “outra maneira de expressá-la [o EEE] é dizer que a melhor estratégia para um indivíduo depende do que a maioria da população está fazendo. Como o resto da população consiste de indivíduos, cada um tentando maximizar o seu próprio sucesso, a única estratégia que persistirá será aquela que depois de desenvolvida não puder ser aperfeiçoada por nenhum indivíduo anômalo”. Ou seja, se todo mundo for bonzinho, isso beneficiará todo mundo, satisfazendo o desejo egoísta de cada um em ser feliz. É claro que sempre podem existir os indivíduos anômalos, aka “filhos da puta”, mas se a sociedade for eficiente em puni-los, será no geral mais vantajoso para cada pessoa ser honesta e, porque não dizer, “altruísta”.

Enfim, você até pode fazer algum sacrifício momentâneo em prol de um benefício maior no futuro. Você até pode morrer por um ideal que você acredita ser tão alto que você preferiria deixar de viver a viver sabendo que você o traiu. Mas sempre será uma questão de usar a razão e de pensar em si. Será sempre uma decisão egoísta. Egoísmo no sentido literal da palavra, sem o peso negativo que comumente se atribui a ela. Um egoísmo racional, que tem como consequencia, mesmo que não pareça à primeira vista, uma certa dose de altruísmo.

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