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Archive for julho \21\UTC 2009

Eu não gosto muito de Platão, por “n” razões que eu não vou discutir agora, mas sempre achei interessante o mito da caverna. Pelo menos, até um dia desses, quando, pensando a respeito, percebi que ela é uma dessas metáforas bombril: tem 1001 utilidades. Explico. Como se sabe, o mito da caverna de Platão conta, resumidamente, a estória de prisioneiros em uma caverna que, acorrentados, passam a vida vendo as sombras das pessoas e animais que passam pela entrada da caverna, sem nunca poderem ver os objetos em si que produzem os reflexos na parede da caverna. Um desses prisioneiros, entretanto, escapa de seus grilhões e sai da caverna, maravilhando-se com a realidade externa que sequer sonhava existir. Ele então resolve voltar e contar a seus companheiros que as sombras que eles passaram a vida vendo e que acreditavam representar a realidade era, no fim das contas, apenas um reflexo distorcido dela. Os seus companheiros não acreditam em seu colega, e o punem por tais blasfêmias.

À primeira vista é uma estória muito interessante, especialmente por nos alertar contra a possibilidade de nos acomodarmos num autoengano reconfortante. Mas, o problema, a meu ver, é que ela não serve muito numa situação prática, pois qualquer um pode usá-la, afirmando que sua crença particular é “a realidade” e que as pessoas que discordam dela são os prisioneiros da caverna. Se estivessem discutindo, por exemplo, um ateu e um teísta a respeito de religião, qualquer um dos dois poderia apelar para o mito da caverna, se colocando na posição do personagem que sai da caverna e que possui o conhecimento verdadeiro da realidade. No fim das contas, essa metáfora de Platão tem um valor, digamos assim, apenas formal,  pois o que é a realidade e o que são as sombras na parede permanecem sendo questões que cada um tem que resolver por si. Lembrando sempre, é claro,  que o máximo que podemos aspirar é chegar a uma boa aproximação da realidade dita objetiva, já que, aparentemente, a essência última das coisas é inatingível.

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