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Posts Tagged ‘Ciência’

Para sorte das gerações futuras e, quem sabe, nossa mesma, o STF, no fim do mês que acabou de passar, julgou constitucional o art. 5 da lei de Biossegurança que permite a pesquisa com células-tronco embrionárias.

Mas não foi uma decisão unânime: seis dos onze ministros votaram por impor algumas restrições às pesquisas autorizadas, chegando alguns a solicitar alterações na lei ou a criação de órgãos de fiscalização, numa atitude estranha a uma corte de justiça que tem como responsabilidade julgar, e não proferir conselhos ao Poder Legislativo.

De qualquer forma, apesar da questão da separação de poderes ser de grande importância, este post cuidará de tratar de uma opinião defendida nos votos de alguns ministros que foram contra às pesquisas, em especial no voto do ministro Lewandowsky, a saber, de que a ciência é uma ideologia.

Primeiramente, cabe deixar claro o conceito de ideologia. Existem várias possíveis significações para o referido vocábulo: a) ciência que trata da formação das idéias e da sua origem; b) sistema organizado e fechado de idéias que serve de base a uma luta política; c) visão falseada da realidade; d) conjunto de idéias, crenças e doutrinas, próprias de uma sociedade, de uma época ou de uma classe, e que são produto de uma situação histórica e das aspirações dos grupos que as apresentam como imperativos da razão. É esta última definição que foi utilizada pelo ministro, como se depreende da seguinte passagem de seu voto: “A ciência e a tecnologia, é escusado dizer, nascem e prosperam em um dado contexto social, refletindo, portanto, uma determinada visão de mundo, historicamente situada (…)”, e, mais a frente, “(…) o conhecimento científico equipara-se a uma ideologia (…)”.

No mesmo voto, Lewandowsky cita a posição de alguns pensadores, como Marx e Habermas, que relacionam ciência e ideologia, além de, no caso de Habermas, ficar explícita a preocupação, aparentemente compartilhada pelo ministro, com a possível “coisificação” que os seres humanos sofreriam por causa da ideologia cientificista.

Antes de levantar as objeções necessárias a essas posições relativas à epistemologia da ciência, vale dizer que, em certo sentido bem estrito, o ministro tem razão. Se olharmos apenas para o significado isolado das palavras, o conceito de ideologia como sendo uma forma de enxergar a realidade nascida de um dado contexto histórico-cultural, então a ciência, como a entendemos hoje, é uma ideologia. A ciência moderna surgiu mais ou menos junto com o Iluminismo, em especial com a adoção do empirismo, ou seja, da técnica de adquirir conhecimento através da observação direta do mundo físico, em contraste com o approach vigente até então, que enfatizava o uso da intuição ou da fé.

Até aí se pode concordar, e se com ideologia se quer dizer apenas isso, não há problema em chamar ciência de ideologia. Mas o problema reside no que se quis dizer para além das palavras. Ao chamar ciência de ideologia, o ministro Lewandowsky não quis apenas chamar a atenção para a história da ciência, mas sim realizar uma crítica que visa pôr, lado a lado, a ciência e outras visões de mundo tidas como ideológicas. Em outras palavras, ele defendeu a idéia, comum em alguns círculos intelectuais da atualidade, de que o pensamento científico é “apenas” mais uma ideologia, nem melhor ou pior do que qualquer outra, estando portanto no mesmo plano do comunismo, do nacionalismo, das religiões de um modo em geral, etc.

Nesse sentido, o de classificar a ciência como mera visão de mundo alternativa, em nada superior a qualquer outra visão, o termo ideologia foi utilizado de forma inapropriada. Se essa significação for utilizada, então se pode dizer tranqüilamente que a ciência não é uma ideologia.

Para isso ficar mais claro, devemos olhar para os fundamentos da ciência. Imaginemos alguém vivendo em algum século remoto no passado. Essa pessoa, ao ver uma rocha caindo observa sua queda: rápida e abrupta. Se, porventura, ele também observa em um momento posterior uma folha caindo de uma árvore, ele percebe que ela cai lentamente, em contraste com a rocha. Dessas duas observações ele pode retirar a crença, que lhe parece razoável, de que objetos mais leves caem mais devagar que objetos mais pesados. Entretanto, como se sabe, essa crença é falsa, e o engano a que o nosso personagem hipotético foi levado a cair reside no fato dele ter desconsiderado a resistência do ar atuante.

Esse tipo de erro, tão comum e “natural”, deriva do apego ao senso comum. Quando, de outra forma, se questiona até que ponto o senso comum é válido, até que ponto as nossas primeiras impressões sobre a realidade são verdadeiras, se está começando a entender o “espírito” científico. Como se sabe, nossas crenças pessoais tendem a embotar a nossa percepção das coisas. Elas funcionam como um óculos colorido que nos fazem ver a realidade na cor de nossas preferências subjetivas. Porém, o real não presta reverência às nossas crenças.

É aí que a ciência entra: para se posicionar ante o senso comum e tentar conseguir um conhecimento verdadeiro a respeito do mundo, sabendo que os seres humanos possuem opiniões e valores pessoais, mas tentando diminuir o máximo possível o papel das mesmas no processo. Ou seja, reconhece-se a falibilidade humana e a sua tendência a distorcer a visão da realidade segundo suas próprias crenças, e, a partir desse reconhecimento, constrói-se um mecanismo de eliminação de erros derivados do mero viés daquele que realiza a observação. Nesse sentido, pode-se até mesmo dizer que a ciência não só não é uma ideologia, como ela é anti-ideológica, pois combate exatamente a tendência de falseamento da realidade tão presente nas ideologias em geral.

É claro que não se está aqui a se fazer uma defesa irrestrita ao empreendimento científico. Uma vez que a ciência é um instrumento, ela pode, como foi e é, ser usada para fins nefastos. No voto do ministro Lewandowsky são citados alguns fatos que ilustram essa constatação, como o surgimento da bomba atômica, a poluição da natureza, o efeito estufa, etc. Mas daí não se segue que sempre os cientistas agirão de forma desabonadora, nem que a ciência, enquanto atividade humana, seja um produto de uma mera corrente ideológica. Ela é, ao contrário, o meio mais eficiente já desenvolvido pelo ser humano na tarefa de coletar informações confiáveis sobre o mundo real [1].


[1] – Basta lembrar, apenas a título de exemplo, da impressionante precisão com que a sonda Phoenix pousou no local esperado em Marte, depois de uma viagem a partir da Terra de 679 milhões de quilômetros!

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Existe um velho brocardo jurídico que diz: “quod non est in actis, non est in mundo” [o que não está nos autos, não está no mundo]. Ele se refere à necessidade do juiz de se ater unicamente aos fatos expressos nas folhas dos autos processuais, não podendo decidir segundo conhecimento direto seu da realidade em análise. É o Direito criando um microcosmo só dele, onde nada mais importa. Claro que esse princípio não é mais levado ao pé da letra por ninguém mentalmente são, mas o que eu quero falar a respeito não é sobre Direito, e sim sobre o Google.

Quando queremos lembrar da letra daquela música, ou confirmar um fato relatado por um colega ou lido em alguma fonte não confiável (um blog, por exemplo), a quem recorremos? os jornais, revistas e TV são as opções tradicionais, mas elas não cobrem mais o universo de informações hoje disponível na Internet. Cabe no fim ao Google a função de tira-teima. Pesquisar nesse “motor” de busca é algo tão comum e difundido que virou verbo na língua inglesa (“to google”)[1], e na língua portuguesa (“googlar” ou “guglar”)[2].

Por sinal, o banco de dados do Google é tão abrangente que, ao digitar a seqüência aleatória “asfasf sdf df” no teclado, obtive, pasmem, 177 ocorrências. Antigamente, quando alguém queria atacar um argumento do seu oponente, ele poderia dizer: “se o que dizes ocorreu mesmo, por que não vi na TV?”. Hoje em dia, teria mais força um contra-argumento assim: “isso que você falou não aconteceu não. Googlei a respeito e não achei nada”.

Claro que há muita coisa que existe e não está indexada nas bases de dados do Google, mas é impressionante a importância que essa ferramenta ganhou no nosso dia-a-dia. Afinal de contas, se alguém lhe disser que conhece uma banda XYZ, e você não encontrar nenhuma menção a ela no Google, você pensaria ou não pensaria “será que essa banda existe mesmo?”. Quod non est in Google, non est in mundo.

[1] – http://www.merriam-webster.com/dictionary/google
[2] – http://pt.wikipedia.org/wiki/Googlar

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