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Posts Tagged ‘Filosofia’

O mito do altruísmo (ou não?)

É muito comum se ouvir alguém falar que devemos ajudar os outros, que devemos fazer sacrifícios aos nossos semelhantes. É algo que parece tão certo, tão correto, que poucos são os que perguntam: por que mesmo? Por que devemos ajudar os outros? Porque isso é o correto, alguém responde. E por que isso é o correto? e, a despeito disso, é sempre correto ajudar os outros? O fato é que a maioria das pessoas parece encarar como um tabu o questionamento de valores morais arraigados. É como se, uma vez que a gente intuitivamente sinta que algo é certo, nós não teríamos a necessidade de explica-lo racionalmente.

Mas o fato é que o altruísmo, o ajudar os outros deixando de lados os interesses individuais de quem ajuda, é uma ilusão. Ninguém é verdadeiramente, literalmente altruísta e, se o fosse, estaria fadado a uma morte prematura. Basta imaginar o exemplo extremo de alguém que, num dia de chuva, visse um mendigo na rua com pouca roupa e decidisse lhe dar todas as suas peças de vestimenta e acabasse morrendo de pneumonia, pois isso, por definição, seria o ápice do altruísmo. Eu preferiria dizer, e provavelmente todo mundo o mais, que isso seria o ápice da burrice.

Todas as pessoas, de forma consciente ou não, agem egoisticamente, quer dizer, agem colocando os seus próprios sentimentos como último parâmetro de decidir o que se deve ou não fazer. Se você se despoja de alguns trocados ao dar uma esmola, você estaria, em tese, diminuindo o seu pratrimônio a fundo perdido e, você diria, isso prova que o altruísmo existe e que você é altruísta. Mas, na verdade, há duas opções de porque você agiu como agiu: uma, você fez isso por que isso lhe faz sentir bem. Não vou nem perquirir das raízes psicológicas desse sentimento, mas o fato é que a maioria das pessoas se sente bem ao ajudar, e se você fez algo porque isso lhe beneficia, então não foi um ato altruísta, por definição; Ou duas, você até que de repente nem se sentiu bem ao dar a esmola, mas o fez por considerá-lo ser um ato socialmente esperado e o medo de prejudicar a sua imagem recebendo a pecha de egoísta lhe impulsionou a agir. Nesse caso, não foi um benfício que informou o seu ato, mas foi o medo de uma sanção, o que não deixa de ser uma forma de considerar as consequencias que você arcaria, se tratando, portanto, de egoísmo.

Mas a questão é: não há nada de errado em ser egoísta. O egoísmo não implica, como muito se pensa, em ser mesquinho e ficar o tempo todo com uma calculadora na mão computando os favores que as pessoas lhe devem. Muito pelo contrário. Existe um tipo de egoísmo, que eu chamo de egoísmo filosófico, ou egoísmo racional, que se contrapõe ao egoísmo “clássico”, ou egoísmo míope, que consiste em determinar a sua conduta segunda regras gerais de maior benefício geral. Com isso eu quero dizer que o indivíduo minimamente inteligente não fica a espreita de qualquer oportunidade de passar a perna nos outros, o que representa o estereótipo que se faz do egoísta, mas ele irá, sim, levar em consideração as consequencias de longo prazo de seus atos. Basta botar a questão em perspectiva: todo mundo quer ser feliz, certo? Esse parece ser o objetivo de 10 em cada 10 seres humanos. Mas a pessoa que age de forma sistematicamente desonesta diminui as suas chances de ser feliz na vida, pois corre o sério risco de fazer cair sobre si algum tipo de punição.

O indivíduo que for, pois, um egoísta filosófico, no fim das contas não poderá ser egoísta no sentido clássico do termo, pois isso lhe prejudicaria no longo prazo. Alguém que mente, frauda, enfim, faz o mal com o fito de conseguir algum benefício imediato acabará, muito provavelmente, sendo punido pela sociedade (esse argumento não vale, claro, para o caso de um um pessoa muito sortuda ou muito ardilosa que conseguisse passar a vida inteira se safando de suas maldades, mas pessoas assim são uma raridade, e, no que concerne ao cálculo racional de probabilidades visando determinar a melhor conduta a seguir, parece mais que razoável que a maciça maioria das pessoas se beneficiaria muito mais sendo indivíduos honestos e bons).

Na realidade, apenas num sentido muito estrito se pode falar em altruísmo: quando alguém faz um sacrifício em favor de outra pessoa sem que isso aparentemente lhe traga nenhum benefício imediato, mas sim alguma promessa de vantagem futura, não necessariamente a ser paga pela pessoa ajudada, mas que o indivíduo reputa compensar o sacrifício atual. É o caso de alguém que ajuda uma pessoa desconhecida que está se afogando arriscando a própria vida para isso. É claro que ele não pode esperar que exatamente aquela pessoa venha a lhe ajudar num possível futuro afogamento seu, mas ele sabe que é preferível viver numa sociedade onde as pessoas ajudam umas as outras e que, para colher o benefício de uma tal sociedade, ele precisa respeitar as suas regras de convivência, pois isso é, no fim das contas, o melhor para ele individualmente falando.

Em biologia existe um termo técnico que se relaciona um pouco com essa idéia: Chama-se teoria do Estado Evolutivamente Estável (EEE). Se trata de uma teoria que afirma que um sistema formado por agentes egoístas que, à primeira vista, acabariam por se destruir mutuamente, na realidade, interagem de tal modo que produzem um efeito no sistema como um todo que resulta em um equilíbrio dinâmico. Como diz Richard Dawkins, em o Gene Egoísta, “outra maneira de expressá-la [o EEE] é dizer que a melhor estratégia para um indivíduo depende do que a maioria da população está fazendo. Como o resto da população consiste de indivíduos, cada um tentando maximizar o seu próprio sucesso, a única estratégia que persistirá será aquela que depois de desenvolvida não puder ser aperfeiçoada por nenhum indivíduo anômalo”. Ou seja, se todo mundo for bonzinho, isso beneficiará todo mundo, satisfazendo o desejo egoísta de cada um em ser feliz. É claro que sempre podem existir os indivíduos anômalos, aka “filhos da puta”, mas se a sociedade for eficiente em puni-los, será no geral mais vantajoso para cada pessoa ser honesta e, porque não dizer, “altruísta”.

Enfim, você até pode fazer algum sacrifício momentâneo em prol de um benefício maior no futuro. Você até pode morrer por um ideal que você acredita ser tão alto que você preferiria deixar de viver a viver sabendo que você o traiu. Mas sempre será uma questão de usar a razão e de pensar em si. Será sempre uma decisão egoísta. Egoísmo no sentido literal da palavra, sem o peso negativo que comumente se atribui a ela. Um egoísmo racional, que tem como consequencia, mesmo que não pareça à primeira vista, uma certa dose de altruísmo.

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Para sorte das gerações futuras e, quem sabe, nossa mesma, o STF, no fim do mês que acabou de passar, julgou constitucional o art. 5 da lei de Biossegurança que permite a pesquisa com células-tronco embrionárias.

Mas não foi uma decisão unânime: seis dos onze ministros votaram por impor algumas restrições às pesquisas autorizadas, chegando alguns a solicitar alterações na lei ou a criação de órgãos de fiscalização, numa atitude estranha a uma corte de justiça que tem como responsabilidade julgar, e não proferir conselhos ao Poder Legislativo.

De qualquer forma, apesar da questão da separação de poderes ser de grande importância, este post cuidará de tratar de uma opinião defendida nos votos de alguns ministros que foram contra às pesquisas, em especial no voto do ministro Lewandowsky, a saber, de que a ciência é uma ideologia.

Primeiramente, cabe deixar claro o conceito de ideologia. Existem várias possíveis significações para o referido vocábulo: a) ciência que trata da formação das idéias e da sua origem; b) sistema organizado e fechado de idéias que serve de base a uma luta política; c) visão falseada da realidade; d) conjunto de idéias, crenças e doutrinas, próprias de uma sociedade, de uma época ou de uma classe, e que são produto de uma situação histórica e das aspirações dos grupos que as apresentam como imperativos da razão. É esta última definição que foi utilizada pelo ministro, como se depreende da seguinte passagem de seu voto: “A ciência e a tecnologia, é escusado dizer, nascem e prosperam em um dado contexto social, refletindo, portanto, uma determinada visão de mundo, historicamente situada (…)”, e, mais a frente, “(…) o conhecimento científico equipara-se a uma ideologia (…)”.

No mesmo voto, Lewandowsky cita a posição de alguns pensadores, como Marx e Habermas, que relacionam ciência e ideologia, além de, no caso de Habermas, ficar explícita a preocupação, aparentemente compartilhada pelo ministro, com a possível “coisificação” que os seres humanos sofreriam por causa da ideologia cientificista.

Antes de levantar as objeções necessárias a essas posições relativas à epistemologia da ciência, vale dizer que, em certo sentido bem estrito, o ministro tem razão. Se olharmos apenas para o significado isolado das palavras, o conceito de ideologia como sendo uma forma de enxergar a realidade nascida de um dado contexto histórico-cultural, então a ciência, como a entendemos hoje, é uma ideologia. A ciência moderna surgiu mais ou menos junto com o Iluminismo, em especial com a adoção do empirismo, ou seja, da técnica de adquirir conhecimento através da observação direta do mundo físico, em contraste com o approach vigente até então, que enfatizava o uso da intuição ou da fé.

Até aí se pode concordar, e se com ideologia se quer dizer apenas isso, não há problema em chamar ciência de ideologia. Mas o problema reside no que se quis dizer para além das palavras. Ao chamar ciência de ideologia, o ministro Lewandowsky não quis apenas chamar a atenção para a história da ciência, mas sim realizar uma crítica que visa pôr, lado a lado, a ciência e outras visões de mundo tidas como ideológicas. Em outras palavras, ele defendeu a idéia, comum em alguns círculos intelectuais da atualidade, de que o pensamento científico é “apenas” mais uma ideologia, nem melhor ou pior do que qualquer outra, estando portanto no mesmo plano do comunismo, do nacionalismo, das religiões de um modo em geral, etc.

Nesse sentido, o de classificar a ciência como mera visão de mundo alternativa, em nada superior a qualquer outra visão, o termo ideologia foi utilizado de forma inapropriada. Se essa significação for utilizada, então se pode dizer tranqüilamente que a ciência não é uma ideologia.

Para isso ficar mais claro, devemos olhar para os fundamentos da ciência. Imaginemos alguém vivendo em algum século remoto no passado. Essa pessoa, ao ver uma rocha caindo observa sua queda: rápida e abrupta. Se, porventura, ele também observa em um momento posterior uma folha caindo de uma árvore, ele percebe que ela cai lentamente, em contraste com a rocha. Dessas duas observações ele pode retirar a crença, que lhe parece razoável, de que objetos mais leves caem mais devagar que objetos mais pesados. Entretanto, como se sabe, essa crença é falsa, e o engano a que o nosso personagem hipotético foi levado a cair reside no fato dele ter desconsiderado a resistência do ar atuante.

Esse tipo de erro, tão comum e “natural”, deriva do apego ao senso comum. Quando, de outra forma, se questiona até que ponto o senso comum é válido, até que ponto as nossas primeiras impressões sobre a realidade são verdadeiras, se está começando a entender o “espírito” científico. Como se sabe, nossas crenças pessoais tendem a embotar a nossa percepção das coisas. Elas funcionam como um óculos colorido que nos fazem ver a realidade na cor de nossas preferências subjetivas. Porém, o real não presta reverência às nossas crenças.

É aí que a ciência entra: para se posicionar ante o senso comum e tentar conseguir um conhecimento verdadeiro a respeito do mundo, sabendo que os seres humanos possuem opiniões e valores pessoais, mas tentando diminuir o máximo possível o papel das mesmas no processo. Ou seja, reconhece-se a falibilidade humana e a sua tendência a distorcer a visão da realidade segundo suas próprias crenças, e, a partir desse reconhecimento, constrói-se um mecanismo de eliminação de erros derivados do mero viés daquele que realiza a observação. Nesse sentido, pode-se até mesmo dizer que a ciência não só não é uma ideologia, como ela é anti-ideológica, pois combate exatamente a tendência de falseamento da realidade tão presente nas ideologias em geral.

É claro que não se está aqui a se fazer uma defesa irrestrita ao empreendimento científico. Uma vez que a ciência é um instrumento, ela pode, como foi e é, ser usada para fins nefastos. No voto do ministro Lewandowsky são citados alguns fatos que ilustram essa constatação, como o surgimento da bomba atômica, a poluição da natureza, o efeito estufa, etc. Mas daí não se segue que sempre os cientistas agirão de forma desabonadora, nem que a ciência, enquanto atividade humana, seja um produto de uma mera corrente ideológica. Ela é, ao contrário, o meio mais eficiente já desenvolvido pelo ser humano na tarefa de coletar informações confiáveis sobre o mundo real [1].


[1] – Basta lembrar, apenas a título de exemplo, da impressionante precisão com que a sonda Phoenix pousou no local esperado em Marte, depois de uma viagem a partir da Terra de 679 milhões de quilômetros!

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Sobre o patriotismo

É muito comum em nossa época e país ouvirmos exortações ao patriotismo. “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, cantam os fãs brasileiros dos esportes, especialmente quando a Seleção está vencendo uma partida (curiosamente, o orgulho e o amor parecem diminuir quando o jogo não vai bem, o que demonstra um condicionamento hipócrita). De qualquer forma, parece senso-comum em nosso país que patriotismo é uma coisa boa.

Aqueles imbuídos do sentimento patriota costumam exteriorizar seu patriotismo de diversas formas típicas, como jurar a bandeira, cantar o hino nacional, ou, no caso do Brasil, repetir a propaganda oficial de que “brasileiro não desiste nunca”.

Mas, o que é mesmo o patriotismo? para efeitos deste texto, o termo “patriotismo” será usado com a seguinte definição: é o amor e devoção à pátria. Patriota é aquele que ama a cultura do próprio país, sentindo orgulho de nascer onde nasceu e de fazer parte da sua comunidade nacional. O verdadeiro patriota prefere o seu país aos demais. Como supostamente disse Stephen Decatur, um almirante naval americano: my country right or wrong (meu país, certo ou errado) [1].

O patriotismo, como o conhecemos, é uma construção recente na história humana, remontando ao surgimento do Estado moderno, por volta do século XV. É bem verdade que o sentimento de lealdade a um grupo existe desde a época em que os seres humanos se organizavam apenas em pequenas tribos. Mas o que hoje chamamos de patriotismo é um misto de lealdade e devoção dirigidos à noções etéreas como “nação” ou “país”, que definitivamente não se confunde com aquela lealdade direcionada ao membros da tribo, ou mesmo a um líder carismático. De fato, como diz Bertrand Russell em seu “A autoridade e o indivíduo”: “A coesão social, que se iniciou com a lealdade a um grupo, imposta pelo medo dos inimigos, aumentou por processos parcialmente naturais e parcialmente deliberados, até que atingiu os vastos conglomerados de gente que conhecemos como nações” [2].

Mas até que ponto o patriotismo é realmente desejável? Quando se pensa nele como elemento de incremento da coesão social, pode parecer algo que se deva buscar. Entretanto, não é preciso grandes digressões para perceber que a idéia de amar uma pátria traz mais prejuízos do que utilidades, além de ser simplesmente errada.

Um dos efeitos mais comuns do orgulho patriota é a segregação entre nações e a hostilização do que é estrangeiro. Afinal de contas, se alguém se orgulha do seu país, é por algum motivo. Na cabeça do patriota, o seu país sempre tem algo de superior aos demais: uma natureza mais bela, um povo mais simpático, uma maior prosperidade. E, das poucas qualidades que ele encontra em seu país, ele retira motivo suficiente para inflar o peito e se orgulhar, às vezes mesmo desdenhando das outras nações. Como Schopenhauer apontou sarcasticamente: “Cada nação zomba das outras, e todas têm razão” [3].

Essa divisão entre “nós” e “eles” é uma das mais perigosas facetas do patriotismo. Levado ao extremo, isso pode até mesmo gerar a guerra. Cada soldado patriota terá a certeza de que seu lado é o merecedor da vitória, certeza esta compartilhada pelos soldados adversários, todos igualmente patriotas.

Todavia, o erro fundamental do patriotismo parece residir na crença de que se deva se orgulhar de algo do qual não se é, nem se poderia ser, responsável, a saber, o fato de se nascer neste ou naquele país, ou de se fazer parte desta ou daquela nação. Não se escolhe o país onde se nasce, simplesmente “caí-se de pára-quedas” neste mundo e, quando se se dá conta, o indivíduo se vê inserido em um sistema pré-estabelecido de normas e convenções o qual chamamos sociedade, e do qual ele não pode fugir (para a grande maioria das pessoas, a emigração está fora das possibilidades, e, de qualquer forma, seria apenas trocar uma “prisão” por outra). Soa irrazoável sentir orgulho por algo que se deu por puro acaso, e não por produto do esforço ou do talento.

Outro delírio recorrente é o orgulho pelo o que outras pessoas fizeram, se se tratarem de compatriotas. É comum ver-se apresentadores de TV sorridentes ao anunciarem que um conterrâneo ganhou este ou aquele prêmio internacional, ou que de alguma forma alcançou alguma notoriedade além das fronteiras nacionais. Se, por exemplo, um grupo de pessoas com as quais eu não tenho nenhuma relação ganha um campeonato desportivo como a Copa do Mundo, a menos que de algum modo eu tenha contribuído para a vitória, não há mérito meu envolvido, e, portanto, nenhum motivo para orgulho pessoal.

Por sinal, a convulsão social que toma conta do Brasil de quatro em quatro anos possui um fundo ideológico. Trata-se de falsear a realidade criando-se símbolos que inculquem nas massas um sentimento de identidade que não existe. Entre o povo brasileiro e a Seleção não há nenhuma relação a não ser a coincidência de, por puro capricho do destino, terem a mesma nacionalidade.

Mais insensato ainda é orgulha-se de coisas que sequer são produtos do empenho humano. Amar a beleza natural de um país chega à beira do insano. Pode-se até amar a beleza, enquanto ideal a ser alcançado, mas aí seríamos forçosamente levados a amar as belezas naturais de todos os países, e não só meramente admirar o que é estrangeiro e reservar o fervor de nosso coração ao que é nacional.

Vale enfatizar que ao atacar-se a idéia de amor a pátria, não se está defendendo o oposto, ou seja, odiá-la. De fato, a mesma argumentação que desconstrói o conceito de que possuir sentimentos como orgulho e amor por um país é uma tolice se aplica para sentimentos contrários, como ódio ou vergonha. Em outras palavras, se eu não devo me orgulhar do meu país somente pelo fato de ter nascido nele, também não faz sentido nutrir vergonha, pois devemos nos orgulhar daquilo em que temos mérito e nos envergonhar daquilo em que temos culpa, e não temos culpa nem mérito de nascermos neste ou naquele país.

Por fim, deve-se deixar claro também que é possível ser um bom cidadão sem ser um patriota. Não é preciso cantar um hino com a mão no peito para respeitar as leis de um país nem é pré-requisito para servir a uma comunidade amar a música e a cultura dessa mesma comunidade. A motivação para ser um cidadão reto em seus deveres e obrigações é mais uma questão de ordem prática, como tentar viver a melhor vida possível dentro de uma sociedade que nos é imposta.

[1] http://en.wikipedia.org/wiki/Patriotism
[2] RUSSELL, Bertrand. russell_a_autoridade_e_o_individuo.pdf . 146KB
[3] http://ateus.net/artigos/filosofia/aforismos_para_a_sabedoria_de_vida.php

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